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Quando o céu azul não é tão belo
Costuma-se dizer que o Brasil é um país privilegiado, pois vários fenômenos naturais extremos que castigam o mundo não acontecem por aqui. O “Furacão Catarina” provou o contrário, e mostrou que também estamos sujeitos à força da natureza. Contudo, o fenômeno natural que realmente preocupa os brasileiros, diferente dos furacões, não faz barulho, vem aos poucos, de “mansinho”, mas o impacto que ele provoca não é menos grave que os ciclones. Trata-se das secas.
No Nordeste do Brasil, a região do país que mais sofre com a estiagem, são vários municípios em situação de emergência. Caminhões pipas tentam fazer o trabalho “dos céus”, distribuindo água para a população. Mas se engana quem pensa que as secas ocorrem apenas nessa região. Há cerca de dois anos houve um longo período de estiagem que deixou mais de 200 cidades do Sul em alerta. O Rio Grande do Sul, por exemplo, decidiu em fevereiro passado construir açudes visando às condições desfavoráveis das chuvas para os próximos meses.

Mas afinal, como ocorrem as secas?
O meteorologista do Sistema Meteorológico do Paraná, Marcelo Brauer Zaicovski, explica. “Este fenômeno natural ocorre quando a evapotranspiração ultrapassa por um período de tempo a precipitação pluviométrica. A precipitação pode ser ausente durante dias, meses ou até anos”, conta.
Quando se trata da causa de um fenômeno extremo são muitos os fatores envolvidos. Com as secas não é diferente. O professor do curso de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná, Nelson Luis Dias, diz um dos possíveis agentes causadores. “A falta de chuvas pode ser, por exemplo, devido à ausência de frentes frias. Variáveis climáticas que ocorrem muito distante daqui podem influenciar em nosso clima. A maneira como o planeta distribui a água na atmosfera é complexa e varia muito”, explica.
Marcelo Brauer diz que alguns estados brasileiros como o Paraná possuem um regime de chuvas bem marcado. A possível ocorrência de um evento de estiagem pode ser provocada devido à situação do clima global, com a influência do El Niño ou da La Niña. O primeiro é responsável clima seco no Nordeste nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro e pelas chuvas na região Sul no meio do ano. Já a segunda provoca eventuais meses de clima frio no início do ano no Sudeste e calor em junho, julho e agosto nesta mesma região.
Ambos os entrevistados concordam que a estiagem é um fenômeno natural que, independente da ação do homem, haverá dias mais ou menos chuvosos. Porém, se o período sem precipitação for muito prolongado, o ser humano e o efeito estufa começam a participar da história. “O que pode vir a acontecer com o fator aquecimento global, conforme indica o último relatório do IPCC (Intergovernamental Panel on Climate Change), é que certos eventos de estiagem possam ser mais longos”, alerta o meteorologista.
Reflexos econômicos das secas
A estiagem tem reflexos diretos em diversos setores da economia e também na sociedade. Após um longo período sem chuvas as lavouras e plantios ficam prejudicados, o que compromete as exportações e o consumo interno. O mercado fica refém e aumenta os preços na tentativa de suprir a queda. Esse efeito cascata termina no bolso da população, que acaba pagando um pouco mais caro pelos produtos.
Outro efeito da seca é a racionamento de água. A escassez pluvial baixa os níveis dos reservatórios e os bairros entram num rodízio de abastecimento. Algo parecido acontece com o setor energético. Quando as hidrelétricas operam com baixa capacidade, a produção não dá conta de suprir o consumo e acontecem os chamados “apagões”.
Faça você também a sua parte!
Economizar é a palavra-chave no combate à estiagem. Simples medidas como reduzir o tempo de banho, não deixar a torneira aberta desnecessariamente e não lavar carros e calçadas com mangueira, já ajudam (e muito) evitar possíveis racionamentos.
Há ainda formas mais criativas de economizar. Uma delas é a construção ecologicamente correta. São edifícios que possuem um sistema de captação/reutilização das chuvas. A água pluvial pode ser utilizada em descargas e na lavagem de calçadas. No Japão, a água das chuvas já é usada na higiene pessoal. Isso é possível graças a um processo de adicionamento químico que leva em conta o ph de cada tipo de precipitação. Todas essas medidas são tentativas de evitar um sofrimento ainda maior devido à estiagem.
Texto: Jeferson Fracaro
Fotos: João Paglione
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