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Curitiba - A Cidade Ecológica, Sorriso, Universitária...

Viva! Em 29 de março Curitiba completa 317 anos! É o momento de festejar, afinal, não é todo dia que se faz Trezentos e Dezessete Anos. Embora tenhamos uma relação diária de amor e ódio com a nossa cidade, ora criticando ora elogiando, não há como negar que temos um carinho especial com ela. Afinal, é o lugar que escolhemos para viver.

Sendo assim, parabéns à cidade de Curitiba. Parabéns a cidade... Sorriso? Não, melhor não, há quem discorde desse “Sorriso” aí. Parabéns à Cidade Ecológica! Isso, Ecológica é mais apropriado. Os parques, bosques, ruas arborizadas e tudo mais. Se bem que ultimamente chamam Curitiba de Cidade da Gente. A mesma Curitiba que também já foi a Capital do Natal. A antiga Cidade Universitária, outrora chamada de Cidade Modelo, que por um tempo ostentou a alcunha de Cidade...Ok, melhor parar por aqui.

Ao longo das últimas décadas Curitiba foi colecionando cognomes. Enquanto algumas dessas denominações surgiram dos hábitos e costumes de seu povo, outras viraram slogans da cidade através de motes de marketing da prefeitura. Independente da origem, alguns desses apelidos foram bem aceitos pela população e pegaram, já outros nem tanto. Segue uma análise alguns desses títulos. Escolha a Curitiba que mais lhe agrada – e não se esqueça de dar-lhe os parabéns.

Cidade Sorriso (ou Cidade da Graça?)
Até hoje costuma-se atribuir a origem do apelido Cidade Sorriso ao consagrado poeta Hermes Fontes. Após uma visita à cidade em 1926, na qual participou de sessões litero-musicais e um sarau dançante no Selecto Club, à época um distinto clube literário, o autor de “Apoteose” e “Gênese” deixou um poema de partida intitulado “Cartão de despedida” que foi publicado em um jornal local. Ao lado do poema, três colunas fazem um balanço da visita do ilustre poeta às nossas terras.

Nesse pequeno texto o jornalista salienta a honra da cidade em receber Hermes, explicando que o próximo destino do poeta ao deixar a “Cidade da Graça” (e não Cidade Sorriso) seria o Rio de Janeiro. De fato, reportagens posteriores publicadas na imprensa curitibana tratam do mesmo equívoco. De autoria do vate ou não, o cognome que pegou mesmo foi Cidade Sorriso. Mas, analisando bem a designação, será que fazemos jus a ela? Quer dizer, será que nós, curitibanos, sorrimos no dia-a-dia?

Não há como negar nossa fama de povo fechado, retraído. Demoramos um pouco mais que os cariocas e baianos a firmar amizades. De acordo com o professor de sociologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Lindomar Wessler Boneti, a temperatura fria é uma das responsáveis por tal reputação. “Temos um clima que nos permite ficar mais tempo dentro de casa. As nossas relações pessoais acabem se desenvolvendo em ambientes restritos, como em clubes e casas de amigos”, diz.

Outro fator que contribuiu, segundo o sociólogo, foi a cultura dos imigrantes que aqui constituíram moradia. “Os povos que vieram para cá e se estabeleceram tem essa característica de serem mais comedidos e racionalizar mais as amizades”, explica.

Nosso “pé atrás”, porém, tem seus pontos positivos. “As amizades dos curitibanos acabam sendo mais demoradas e lentas, embora possam ter uma maior durabilidade”, diz o sociólogo. Assim, se você conseguir conquistar a confiança de um de nós, sorria: pois você acaba de ganhar um amigo para a vida toda.

Cidade Ecológica
Dos títulos que acompanham Curitiba onde quer ela seja citada, o de Cidade Ecológica é de longe o mais usado. Com cerca de 18 milhões de metros quadrados de parques e bosques, a capital é uma das líderes em áreas verdes (18% do município). E esses números, felizmente, não param de aumentar. De tempos em tempos Curitiba um novo parque ou bosque: o último, e que está sendo construído no Abranches, é bosque Erwin Grogër, em homenagem a um dos precursores do montanhismo no Brasil.

Porém, a alcunha de Capital Ecológica não se deve só à grande área verde urbana. Aliás, pode-se dizer que a cidade tornou-se conhecida internacionalmente muito mais por conta das medidas que adotou na separação do lixo e programas e projetos de educação ambiental.




O programa Lixo que não é Lixo, que consiste na separação dentro de casa do lixo reciclável do orgânico, foi pioneiro no país e chegou a ser premiado pelas Nações Unidas. A coleta seletiva foi implantada aqui em 1989. A eficácia do Lixo que Não é Lixo comprovou-se com o tempo, com ampla aceitação da população.




Aliás, os cidadãos curitibanos têm o seu mérito na limpeza da cidade. Em reportagem feita pelo Fantástico, as ruas principais de capitais do país ficaram um dia sem varrição. Depois de 24 horas, os garis recolheram apenas 33 kg de lixo num trecho de um quilômetro da rua Marechal Deodoro, no centro de Curitiba. Em outras metrópoles, como Salvador, foi coletada mais de uma tonelada de lixo.

O que não anda contribuindo muito para nossa imagem ecológica é a indefinição quanto ao aterro da Caximba. Espera-se um consenso entre o Instituto Ambiental do Paraná e a Prefeitura para que a Capital Ecológica retorne aos seus melhores dias.

Cidade Modelo
Uma cidade sulamericana servindo como modelo para outra localizada em um país do Primeiro Mundo? Foi o que aconteceu em abril de 1992, quando os cidadãos de Manhattan compareceram ao Urban Center para conferir a amostra de título tão pretensioso quanto promissor: “Curitiba, a cidade desconhecida que poderia salvar o mundo”. Os americanos, já na época sufocados pelo tráfego semicaótico, lixo nas calçadas e nenhum sinal de árvore em meio à selva de pedra, desejavam conhecer melhor o nosso sistema de transporte público e os programas de reciclagem e preservação da história.

Desde então passaram-se 18 anos e, se com nosso exemplo não salvamos o mundo, podemos dizer que muitas de nossas medidas ainda continuam na vanguarda. No transporte público, podemos comemorar a ampliação da frota (hoje são 1.910 ônibus) sem a cobrança de taxas abusivas. Outro ponto é o aumento do número de linhas, o que possibilita ao passageiro atravessar a cidade inteira pagando apenas uma passagem. Sem contar a Linha Verde, que quando pronta vai facilitar ainda mais a mobilidade urbana.



Já que a questão da separação do lixo já foi tratada anteriormente, cabe fechar o tópico comentando a preocupação dedicada à conservação da história da cidade. Entre as ações nesse sentido estão a transformação do calçamento histórico descoberto há pouco na praça Tiradentes em atração turística, as reformas de casarios de época, como no caso do Paço da Liberdade, e a inclusão de locais importantes do passado da capital nas rotas turísticas.


Para o historiador Anthony Leahy, no entanto, tais medidas não surtem efeito sem o suporte de uma política forte de resgate à história municipal. “Curitiba precisa de um plano de desenvolvimento cultural continuado que incentive o curitibano a conhecer a sua história e o turista a respeitar a cidade que o acolheu”. Ele explica que Curitiba passou a receber turistas das mais variadas partes do Brasil e do mundo de forma acelerada, sem que o povo que aqui residia tivesse tempo de firmar a sua identidade cultural. Nessa perspectiva, a revitalização dos pontos de importância histórica não bastaria para que a população venha a tomar conhecimento de seu passado. “O Paço foi reformado, mas não foi inserido no contexto atual. Quem sabe o que acontecia ali? Precisamos de um programa maior que vise buscar e disseminar as nossas origens”, enfatiza.

Cidade Universitária
Curitiba ganhou o apelido de Cidade Universitária na década de 60. Em efervescência acadêmica a capital recebia muitos estudantes de outros estados e do interior. Nos fins de tarde eram comuns os encontros de jovens para debater a produção cultural e, com frequência, haviam reuniões na sede do Diretório Central dos Estudantes.

Naturalmente, de lá para cá, o número de estudantes e universidades aumentou. Segundo dados de 2006 do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), são 105.176 alunos em cursos de graduação em 42 instituições de ensino superior. Incluídos os estudantes de especialização, mestrado e doutorado, são cerca de 124.970 matriculados em 78 instituições de ensino. Paradoxalmente, o cognome da cidade se perdeu no tempo.

Para o estudante Wagner Tauscheck, um dos coordenadores do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Paraná, a perda dessa imagem não significa que os universitários estão desmobilizados. “O problema não é o aluno. A grande maioria dos cursos tem centros acadêmicos que representam bem os cursos. Temos uma boa participação nas eleições de diretoria se compararmos com outras universidades”, conta.

Segundo ele, o que poderia contribuir para uma maior participação dos alunos é a criação oportunidades para o debate. “Precisamos garantir espaços propícios à discussão. “Queremos organizar um fórum de licenciatura. Não seriam colocadas pautas relacionadas somente ao ambiente acadêmico, mas também de abrangência nacional. Só assim faremos com que os estudantes sintam a importância do movimento estudantil”, diz.

Capital do Natal
Nem sei bem o motivo, talvez por economia de energia elétrica ou falta de disposição dos moradores, mas é notável que o hábito de enfeitar a casa com luzinhas em épocas natalinas foi se perdendo com o passar dos anos. Residências e vias que viraram atrações turísticas, e ajudaram Curitiba a conquistar o apelido de Capital do Natal, acabaram por abandonar o costume – e título acabou às escuras.



Guaraci do Rocio Costa, 53 anos, costumava visitar os pontos ornamentados com luzes todos os anos. Em seus passeios levava consigo seus dois filhos e os sobrinhos. Com um certo saudosismo ela lembra os anos-auge da celebração e o gradativo abandono da prática. “Realmente deu uma diminuída (a quantidade de casas enfeitadas). Antigamente, várias ruas eram enfeitadas, principalmente no bairro Batel. Hoje ficou só o antigo Bamerindus (Palácio Avenida). Acho que deviam investir mais nisso”, cobra.




Com a intenção de reaver o título e atenta ao apelo turístico que ele representa, a Prefeitura de Curitiba lançou no fim do ano passado a campanha cujo nome não tinha como ser mais apropriado: Curitiba, Capital do Natal. Uma das ações foi a instalação de 10 mil metros de luzinhas em monumentos, edifícios históricos e igrejas. Outras medidas foram o abatimento dos gastos extras da conta de luz nas casas que tiveram uma decoração diferenciada e a retomada da Linha Natal, com o ônibus passando pelos principais pontos decorados.

De acordo com a presidente do Instituto Municipal de Turismo, Juliana Vosnika, a campanha começa a surtir efeito. "Em 2009 demos um passo significativo para que Curitiba volte a ser vista como a Capital do Natal. A Prefeitura fez sua parte ao oferecer incentivos e ao investir em atrativos para turistas e moradores, diferentemente de outras cidades do Brasil onde apenas a iniciativa privada trabalha pelo Natal", diz.

Texto: Jeferson Fracaro
Fotos: Diversos