Meio Ambiente
Madeiras certificadas

Uma questão de consciência social

Os dados são alarmantes: de um total de, aproximadamente, 1,3 milhão de km² da Mata Atlântica primitiva, restam, somente, cerca de 50 mil km² – menos de 5% da área original. Se somarmos as áreas desmatadas da Floresta Amazônica, da Mata Atlântica e do Cerrado são 2,5 milhões de km², o que representa quase 30% do território brasileiro!

Os números do Ibama assustam, mas provavelmente estão desatualizados. Nesse exato momento o desmatamento e a extração de madeira de forma ilegal estão inflando as estatísticas e deixando a situação ainda pior. E você pode estar contribuindo para que essa prática continue. Afinal, alguma vez já procurou conhecer a procedência da madeira da mobília que possui em sua casa?

A resposta mais provável a essa pergunta é “não”. O brasileiro ainda não possui o hábito de verificar a proveniência da madeira ao comprar uma mesa, estante ou uma cadeira. Parte dessa indiferença deve-se ao desconhecimento do processo de regularização.

A certificação

O Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC) é a entidade que coordena o processo de emissão dos selos que garantem a extração regular de madeira. Esta organização não-governamental nomeia empresas, as certificadoras, para que elas avaliem se as operações florestais estão dentro dos padrões estabelecidos pelo Conselho. No Brasil, as áreas certificadas pelo FSC totalizam 6,2 milhões de hectares (florestas nativas e plantações). No mundo, são 102 milhões hectares certificados pelo sistema da instituição.

O coordenador técnico do FSC Brasil, Bruno Martinelli, ressalta a necessidade de verificação de procedência da madeira. “Com o selo há uma garantia de origem da madeira que assegura ao consumidor (corporativo ou não) que a madeira não provém de desmatamento e não é ilegal. A certificação garante que ela é produzida com vistas à redução de impactos ambientais negativos e à maximização de benefícios sociais”, diz.

Dessa forma, pensar em sustentabilidade é ter em mente a preocupação para que os nossos descendentes não conheçam as ricas florestas do Brasil apenas através dos livros de história. O professor de Engenharia Florestal, Dartagnan Baggio Emerenciano, ressalta a importância dessa verificação. “A procedência da madeira certifica que o processo de sua retirada da floresta é legal, seguindo toda a legislação ambiental vigente, bem como as práticas de sustentabilidade. Uma dessas práticas é o manejo florestal, que mantêm a vocação da terra (no caso, florestal), promovendo a existência de madeira e da manutenção da biodiversidade para as futuras gerações”, explica.

Por mais benefícios ao meio ambiente que o processo de certificação traga, existem regiões do Brasil em que a procura, que se dá de forma voluntária, ainda é baixa. E é justamente nessas áreas onde a situação é mais crítica. “Na Amazônia a procura estagnou em 2004. De lá pra cá o interesse não cresceu, certificaram-se as melhores empresas que atuam na região e o ‘grosso’ permanece sem se certificar ou permanece na ilegalidade ou legalidade predatória (desmatamentos legalizados)”, alerta Bruno Martinelli.

Tal fato pode se tornar ainda mais preocupante se verificarmos que existem certas espécies de árvores que correm o risco de extinção. Uma delas, que subsiste justamente na região da Amazônia, o mogno, tem seu corte proibido. Esse tipo de árvore é um exemplo entre tantos outros exemplares endêmicos que povoam as florestas brasileiras, ou seja, que não conseguem se adaptar em outros ecossistemas.

Para mudar a cabeça das pessoas, e conscientizá-las sobre a importância da investigação na hora da compra, é preciso modificar toda a forma como a sociedade se comporta. Tal fato só é possível se algumas medidas forem adotadas.

Para virar o tabuleiro

Infelizmente, parece que no Brasil os hábitos só mudam se houver alguma penalidade. Por conta do tamanho da extensão territorial do nosso país e da lentidão do governo em angariar recursos (humanos e financeiros) para incrementar a fiscalização das matas, ficamos reféns da boa fé das empresas em atuarem dentro da lei.

Martinelli faz um panorama sobre a situação no país. “Há madeireiras e madeireiras, como em todo setor, embora as empresas responsáveis sejam em menor número. Ainda é difícil para o governo fazer uma fiscalização eficiente na Amazônia brasileira - falta pessoal e falta investimento. É uma indústria local associada (madeireira e agropecuária, principalmente) com forte "cultura" de ilegalidade fundiária, ambiental e social”, diz.

Mas apenas colocar a culpa nos governantes não adianta. Todos devem se preocupar e colaborar, assim, as empresas que não se adequarem não conseguirão se sustentar. “Nas cidades é tempo de "consumo consciente" ou "consumo responsável". Está na hora de todos nós nos perguntarmos: de onde vem esse produto? Florestas foram desmatadas ou invadidas para que ele fosse produzido? Foi feito com mão-de-obra escrava ou infantil? Houve violação de direitos das populações tradicionais? Na floresta e na cidade precisamos de ações urgentes para transformar os meios de produção e consumo”, diz Bruno.

Eliminar por completo o uso de madeiras é uma medida impossível. Contudo, é possível usar esse recurso de forma consciente e sustentável. Exija madeiras certificadas! E dê o primeiro passo rumo a um futuro mais inteligente.

Texto: Jeferson Fracaro
Foto: sxc