Artigo/Geral
Júlio Campos

Entrevista: Jeferson Fracaro
Fotos: Fabio Oliveira


Costumam dizer que quem tenta fazer duas coisas ao mesmo tempo não completa nenhuma direito. No entanto, essa máxima está longe de ser aplicada ao piloto Júlio Campos. Ele é o líder isolado na categoria Pick Up Racing, com grandes chances de levar o título, correndo pela AMD Racing e disputa a ponta da tabela na Copa Vicar, pela Carlos Alves Competition Team.

Em entrevista à Where Brasil Curitiba, Júlio fala sobre a rotina da profissão, como é correr em dois campeonatos simultaneamente, o desgaste físico, seus gostos e os bastidores do circo da Stock Car.

WHERE BRASIL – Com as provas das duas categorias, treinos e viagens, não falta tempo para a família? Eles reclamam?
JÚLIO CAMPOS - A maioria das provas é no mesmo final de semana. É sair de uma e entrar na outra. E olha que estou desde os nove anos correndo. Comecei no kart, fiz a Fórmula Barber Dodge, nos Estados Unidos, fui para a Stock Car Light, Stock Car principal e agora corro na Pick Up Racing e na Copa Vicar. Minha família está acostumada. Morei na Itália por dois anos e fiquei mais dois nos Estados Unidos. Então, ficar com o meu pai em casa é muito difícil. Desde quando eu era moleque é assim, eles já se acostumaram.


WB
- O seu passatempo deve ser nada que envolva pista, carros, motor... Ou vai dizer que no momento de lazer assiste a Fórmula 1 na tevê?
JC - (Risos) De passatempo, eu faço jiu-jitsu há uns 10 anos. Tênis eu jogo de vez em quando, futebol também, mas de bagunça mesmo. Mas o que mais levo a sério é o jiu-jitsu. E vejo tudo relacionado à corrida: Fórmula Indy, GP2, Fórmula 1... Estou por dentro de tudo: site, internet, televisão. Até porque eu já andei com quase metade do grid do pessoal que corre na Fórmula 1. Alonso, Hamilton, Kubica... Com muitos deles eu já corri de kart na Europa. Ou eu corria contra ou era de uma categoria acima ou abaixo. Sempre via o Felipe Massa e o Rubinho. Sei a história de todos que estão lá. Também conheço muita gente da Indy. Hoje, acompanho o Rafael Matos, que andou comigo a vida inteira de kart. Sempre quero saber onde estão os amigos.


WB
- Desse pessoal todo, você procura se espelhar em alguém?
JC - Não me espelho em ninguém, não. Mas o que eu mais admiro é o Rubinho, como piloto e por tudo o que ele passou. As pessoas vivem falando: “Ah, é o Rubinho, então...”. Todo mundo esperava que ele fosse substituir o Senna, e isso é impossível, é o melhor que existiu. Mas, em minha opinião, o Rubinho é o melhor que temos hoje, com certeza. O Massa está numa evolução grande, e daqui a uns três anos pode conquistar um título mundial, mas hoje o melhor brasileiro que a gente tem como piloto é o Rubinho.

WB
- Como você se prepara fisicamente para encarar as duas provas seguidas?
JC - É muito mais adquirir o costume. Eu já me acostumei com o calor dentro do carro. 40 a 50 minutos lá para o piloto é pouco, não é muita coisa. Só que o calor, dependendo da pista, chega a 50º, e você está morrendo lá. É uma sauna. Tem gente que passa mal sem fazer nada. Está esperando para alinhar para o grid e já está mal, antes de começar, de tão quente que é. Então, é o costume. Isso e outras coisas. Eu faço academia, jiu-jitsu e corro no parque. Coisas que todo piloto deve fazer. Bom, eu acho que todos fazem, não sei.

WB
– Tem que se privar de comer o que gosta para estar apto a competir?
JC - Não, eu como o que quiser e não tem esse negócio, não. Mas no final do ano tento pegar leve. Como tem quatro corridas em 40 dias, nessa época eu tento maneirar o máximo possível. E também perco peso muito rápido. Eu vou 75 quilos a 68 e nunca engordo. Sempre estou magro. Chegam as corridas e todo o peso que tenho se vai.

WB
- Tem noção de quantos quilos perde por prova?
JC - Todo mundo fala em três quilos. Eu faço as duas etapas. É muita água. Deve perder de dois a três quilos só em água. Mas se você tomar isso em dois, três dias, repõe tudo. Isso com uma alimentação boa.

WB
- Por que a escolha pela Pick Up Racing e a Copa Vicar?
JC - Aconteceu de no final do ano passado dar aquele problema todo do dinheiro, e o pessoal com quem eu estava fechando para andar na V8 não conseguiu arrecadar o necessário. Foi aí que apareceu a oportunidade de andar na Copa Vicar e, na semana da corrida, me chamaram para fazer uma etapa da Pick Up Racing. Eu aceitei fazer as duas, seria uma experiência legal, já que estava vindo de 2006, 2007, 2008 fazendo quatro etapas em um ano, três no outro e no último seis, sempre substituindo algum piloto. Isso por não ter patrocínio e dinheiro, porque a maioria dos pilotos leva dinheiro para correr. Na Stock Car ainda hoje acontece muito disso, não entram pilotos profissionais porque a maioria chega lá e paga para andar. Como eu não levo dinheiro para correr, fui ver aonde me encaixava.

WB
– Pagam quanto?
JC - Tem piloto que paga mais de um milhão e duzentos na temporada toda. Muitos tiram do bolso. As equipes que conseguem patrocínio contratam os pilotos, e aquelas que não conseguem são “contratadas” pelos pilotos. Acho que em 30% a 40% das equipes são os pilotos que pagam para andar. O que é uma pena. Mas automobilismo sempre foi assim, infelizmente. O certo seria as equipes terem o dinheiro e o patrocínio para escolher os pilotos que elas querem. Mas não funciona desse jeito e aqui no Brasil não é diferente. O piloto que trouxer dinheiro, corre.

WB - A maioria dos pilotos começa no kart, e dessa categoria você entende bem. Qual é a principal lição tirada dela?
JC - Realmente, andei muito de kart. Fui quatro vezes o Campeão Brasileiro e duas vezes ganhei o sul-americano. Olha, o kart dá muita experiência em corrida. Evita que você faça muita besteira na pista. Mas na hora de andar é diferente. Se você colocar dois pilotos na Fórmula 3, um que nunca entrou em um kart, mas treinou seis meses na F3, e outro que andou de kart a vida inteira e foi para a corrida naquele final de semana, quem vai andar na frente é aquele que treinou seis meses.

WB
– Na luta pelos títulos da Pick Up Racing e Copa Vicar, mas com a cabeça na Stock Car, Júlio?
JC - Não, isso é para depois. Primeiro tenho que terminar esse ano, que está muito bom. Estou em primeiro na Pick Up e em segundo na Vicar. Seria interessante eu tentar ganhar os dois títulos, por isso tenho que me concentrar. Não tenho que ficar procurando abrir o leque: “Ah, vou atrás da V8...”. Não. Preciso primeiro terminar o ano bem. Mas a ideia para 2010 com certeza é a V8.